O Mito Da Blockchain

Se me perguntassem há um ano atrás, diria que a blockchain é a tecnologia mais revolucionadora alguma vez criada, talvez uma espécie de internet 3.0 — Ou 4.0, por esta altura já não sei a quantas ando — que nos permite enviar ou guardar valor de uma forma livre e descentralizada.

A questão é que não existe valor se não existir bitcoin.

A blockchain é claramente um conceito muito falado, mas pouco compreendido. Oiço demasiadas vezes a expressão:

“Bitcoin? Isso é hype! A blockchain é que vai revolucionar tudo.”

Seria como dizer que a internet nunca iria revolucionar o mundo, apenas as bases-de-dados onde a informação se encontra.

Que parvoíce.

Se a própria definição de blockchain é o balanço onde são registadas as transações da bitcoin, sendo esse o seu único propósito, não existe forma de uma blockchain funcionar sem uma criptomoeda associada.

Isto não é uma opinião minha; é um facto.

Qualquer sistema que incorpore uma base-de-dados descentralizada, que não detenha um incentivo económico (como a bitcoin), é apenas isso: uma base-de-dados descentralizada.

A arquitectura de uma base-de-dados distribuída (dentro de uma organização).

A blockchain só funciona porque existe um incentivo económico que obriga os validadores a competir, de forma a ganhar o prémio por validar cada bloco de transações.

E porquê?

Para que os agentes participantes (quem envia e recebe bitcoin), possam chegar a um consenso — de que certo valor foi na verdade transferido entre a carteira A e a carteira b.

A função dos miners é verificar transações, mas para isso é necessário adquirir hardware próprio para tal efeito. Somando a esse custo, existe também o custo energético associado ao software que faz as computações necessárias para validar cada transação e bloco.

Mas na ausência de um incentivo económico, quem garante a segurança da rede? Se não existir uma recompensa por validar transações, então não há motivo para suportar os custos de manutenção da blockchain.

A não ser que os miners aceitem feijões. Seria uma proposta de valor interessante.

Os Desafios Da Blockchain

As blockchain encontram-se sob a categoria DLT, ou seja Distributed Ledger Technology, que no fundo representa apenas a capacidade de existir uma infraestrutura que valide e confirme a veracidade de toda a informação, que pode ser ou não descentraliada por múltiplas entidades, pessoas e locais.

O desafio da tecnologia blockchain não é desprender-se de uma criptomoeda, para isso já existem bases-de-dados centralizadas e distribuídas por múltiplas regiões, com redundância em todos os nodes (ou servidores).

O desafio que existe hoje em dia é provar que existe outro mecanismo de utilidade para esta tecnologia.

Desafio Primeiro

Os contractos inteligentes (smart-contracts)são claramente uma ferramenta que poderá resolver alguns problemas de transparência, confiança e comunicação entre agentes. Isto porque representam a capacidade de criarmos activos e contractos digitais que executam funções autónomamente, com base em parâmetros pré-definidos.

Um exemplo que representa a utilidade deste tipo de contractos é a aplicação Wabi, que regista todas as fases de produção e distribuição de pacotes de leite na China. Para quem não sabe há um problema enorme com a contrafação de productos lacticínios que acabam por vitimar muitas crianças todos os anos.

Este problema já é falado desde, pelo menos, 2008.

O que a Wabi construíu foi um mecanismo que dá aos consumidores uma prova incontestável da proveniência do leite e se foi adulterado ou não.

Tudo isto através de uma app mobile.

Que só funciona porque a informação fica registada numa blockchain (Ethereum), onde os utilizadores confiam que nunca pode ser alterada.

Incrível, não é?

Existem milhares de outras razões para este tipo de contractos inteligentes proliferarem, muito para além da proteção de consumidores, supply chain, ou até comunicação entre pessoas e máquinas.

O que estes contractos fazem é substituir o mecanismo de confiança dos agentes. Em vez de confiarem numa outra terceira parte que verifica e valida a informação (standards de qualidade, marca aprovada, etc), qualquer agente pode verificar a validade da informação com os seus próprios olhos.

Isto porque qualquer contracto inteligente, criado sobre a rede Ethereum, é transparente e pode ser verificado e auditado por qualquer pessoa.

Desafio Segundo

Descentralização. Esta é a palavra-chave que tantos experts nem sequer mencionam quando se referem à tecnologia blockchain.

Os três modelos de governância: centralizado, descentralizado e distribuido

Existem dois conceitos distintos que às vezes são confundidos durante as discussões sobre o tema blockchain:

  1. Governância,
  2. Infrastrutura

O primeiro refere-se a como está distribuído o poder, informação e controlo. Tanto os dois primeiros modelos, centralizado e descentralizado, implicam a existência de algum controlo por parte de um indivíduo ou organização; a existência de uma empresa que coordene as actividades por exemplo. Já o modelo de governância distribuído implica que nenhum participante tenha mais poder que o seguinte.

Ou seja, a questão que se prende no fundo é: quem manda?

Quem pode escrever nessa base-de-dados? Há um administrador de sistema, ou qualquer pessoa pode participar?

O segundo ponto refere-se á infraestrutura, que pode ser centralizada ou descentralizada num só servidor ou região geográfica. Apenas isso.

Assim sendo, descentralização pode ter duas aplicações distintas. O que procuramos, penso eu, é um modelo de governância distribuído por todos os utilizadores e uma infrastrutura descentralizada.

Que por acaso já é como funciona a blockchain.

A resposta para a pergunta “será que a minha organização precisa de uma blockchain?” é bem mais deprimente do que imaginaram.

Pensem se existe algum benifício em implementar um sistema transaparente e imutável que pode ser verificado por qualquer pessoa em qualquer momento do tempo, permissivo e controlado por todos os participantes.

lol.

Desafio terceiro

O último desafio da blockchain será escalar o número de utilizadores exponencialmente. E para escalar é preciso re-pensar muitos sistemas de incentivos, interfaces, produtos, etc.

Questões técnicas não me preocupam, até porque existe malta incrívelmente brilhante a trabalhar nessa área.

Inclusivé alguns Portugueses!

Mais tarde ou mais cedo será criada uma app que permita a utilizadores menos tech savvyy, rapidamente aprender a usar criptomoedas e todas as funcionalidades.

Contúdo, é necessário que os projectos de criptomoedas compreendam que o objectivo da descentralização é um must.

Qualquer ICO ou criptomoeda que não ofereca aos utilizadores um mecanismo para ganhar tokens com a sua participação, não faz sentido. Para isso já temos serviços centralizados que funcionam às mil maravilhas.

A não ser que começem a acreditar que os vossos dados, informação e conteúdo tem valor monetário.

Será que o facebook, linkedin ou google, funcionariam sem o vosso contributo? Sem os vossos posts, fotos, videos, likes ou partilhas?

Então porque não sermos todos recompensados por isso?

Se não fizermos um esforço para criar produtos mais financeiramente inclusívos para todos os participantes, então qual o objectivo? Encher os bolsos de quem está no topo?

Para que raio serve a blockchain se não mudármos o modelo de distribuição de poder?

Meus meninos e meninas, a mudança de paradigma advém da nossa mentalidade e não da tecnologia em si.

Comentem e partilhem. Twitter @febrocas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *